Ana Peixoto formou-se em Física na UMinho e construiu um percurso de investigação ligado ao CERN, onde trabalhou durante uma década. De regresso a Portugal, abraça agora um novo desafio: aproximar a indústria nacional das grandes organizações mundiais ligadas à Big Science.

Recorda-se do seu primeiro dia da UMinho?
Lembro-me da minha primeira visita à UMinho, ainda como estudante do ensino secundário, no âmbito das Masterclasses em Física de Partículas, organizadas pelo Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas da Universidade, em articulação com o CERN. Foi o meu primeiro contacto com o mundo das partículas — um dia de genuíno fascínio pela Ciência e de grande aprendizagem sobre o nosso Universo. Percebi, nesse dia, que queria ser cientista! Estava no 11.º ano.

Filha de um serralheiro e de uma funcionária judicial, foi a primeira universitária da família. Aos 33 anos, tem já um percurso de investigação em Física de Partículas que a levou a alguns dos principais centros científicos do mundo. Como foi este percurso?
Foi um caminho muito feliz. Fiz a licenciatura e o mestrado em Física na UMinho e concluí o doutoramento na mesma área, sob orientação do professor Nuno Castro. Depois realizei o pós-doutoramento no Laboratório de Física Subatómica e de Cosmologia da Universidade de Grenoble e ainda desenvolvi investigação na Universidade de Washington. Sempre gostei do processo de chegar a uma resposta e, ao longo do meu percurso, as perguntas foram surgindo e foram sendo encaradas como desafios alcançáveis nos vários temas que fui aprofundando. Esta busca constante trouxe-me muita satisfação e novos desafios. Posso dizer, hoje, com toda a convicção, que faço aquilo com que sempre sonhei!

Em 2019 tornou-se a primeira portuguesa a receber a ATLAS PhD Grant, que lhe permitiu fazer todo o doutoramento no CERN - Laboratório Europeu de Física de Partículas, onde se encontra o maior acelerador de partículas do mundo, o Large Hadron Collider (LHC). Foi a realização de um sonho?
Sem dúvida! Quando entrei no CERN pela primeira vez, senti que todo o esforço académico tinha valido a pena e que o meu percurso estava a “ganhar asas”. Ainda hoje sinto essa emoção quando percorro os corredores do CERN, que testemunharam tantos momentos marcantes da história da física. Ao longo de dez anos de colaboração no projeto ATLAS, assumi várias responsabilidades, desde a substituição de detetores no túnel do LHC até à liderança de uma equipa de comunicação. Integrar uma colaboração com cerca de seis mil colaboradores, unidos em torno de um objetivo comum, permite-nos compreender melhor as diferentes etapas do trabalho científico, desde a aceleração das partículas até à análise dos dados. Além disso, sentimos que fazemos parte de uma grande família, com muitas nacionalidades e culturas!

ap-s-9.jpg

À descoberta dos segredos do Universo

Para quem está de fora, conceitos como Física de Partículas, Large Hadron Collider ou ATLAS podem parecer quase ficção científica. Afinal, o que é que vocês procuram quando fazem aquelas colisões de partículas no LHC?
O nosso objetivo é estudar os constituintes do Universo com a maior precisão possível. Parte destes constituintes são as partículas elementares presentes nos átomos de todos os elementos químicos da Tabela Periódica: os eletrões e os quarks (que constituem os protões). Podemos imaginar o LHC como uma enorme “pista” de 27 quilómetros de comprimento, onde aceleramos protões em sentidos opostos, a velocidades muito próximas da velocidade da luz. Quando colidem entre si, são produzidas novas partículas, cujos sinais são registados pelos detetores e posteriormente analisados. O ATLAS funciona como uma gigantesca câmara que regista os sinais destas colisões, permitindo-nos analisar o que acontece e compreender melhor as partículas produzidas. Claro que esta é uma visão muito simplificada [risos].

Porque é tão importante perceber o que acontece nestas colisões?
Porque nos permite observar fenómenos raros que não ocorrem no nosso quotidiano, como é o caso do bosão de Higgs, descoberto no CERN em 2012. De forma mais visual, estas experiências permitem-nos recriar condições semelhantes às dos primeiros instantes do Universo e compreender melhor a sua evolução, ajudando-nos, quem sabe, a compreender também o seu futuro!
 
Que contributo teve o seu doutoramento neste âmbito?
O meu doutoramento centrou-se no estudo de possíveis novas formas de interação do quark top, a partícula elementar com maior massa conhecida. Os resultados obtidos ajudam a testar teorias que vão além do Modelo Padrão da Física de Partículas, algumas das quais procuram explicar a matéria escura.
 
Para além da sua investigação, foi durante anos guardiã da sala de controlo do detetor ATLAS, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso deve dar muitas histórias para contar quando se junta com a família ou os amigos. Há alguma que ainda hoje conte?
Tenho muitas histórias, sem dúvida [risos]. Lembro-me do dia em que eu e os meus colegas detetámos, através das imagens de uma câmara, fumo a sair de um circuito elétrico na “caverna” do CERN, situada a 100 metros de profundidade. Como nos apercebemos da situação antes de os sensores darem o alarme, contactámos imediatamente os bombeiros, conseguindo assim evitar um pequeno incêndio.

ap-s-10.jpg

Novos desafios para a ciência em Portugal
 
Há cerca de um ano deixou o CERN para abraçar um novo desafio em Portugal: ser Industrial Liaison Officer da AI² – Agência para a Investigação e Inovação. Em que consiste a sua nova função?
A minha função como oficial de ligação para instituições científicas internacionais consiste no acompanhamento das relações entre a indústria portuguesa e os departamentos de aquisição das diversas organizações científicas de que Portugal é membro, como o CERN, a Agência Espacial Europeia e o International Thermonuclear Experimental Reactor (ITER), entre outras. Mais concretamente, procuro identificar oportunidades de colaboração, mobilizar as empresas portuguesas relevantes e facilitar o contacto destas com as organizações científicas, nomeadamente no âmbito dos processos de aquisição e das necessidades técnicas. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento da indústria portuguesa em áreas ligadas à Big Science, como a Física, a Energia, os Materiais e a Astronomia, entre outras.

Como vê o lugar de Portugal no panorama internacional da Física de Partículas?
Portugal mantém-se num lugar de destaque nas grandes colaborações de Big Science, onde os laboratórios nacionais, através dos seus investigadores, evidenciam o seu talento tanto na vertente teórica como na vertente experimental.
 
E que futuro perspetiva para os jovens investigadores da área?
Continua a ser necessário garantir maior estabilidade profissional aos jovens investigadores. Esta foi uma necessidade que também identifiquei em todos os países onde trabalhei como cientista.
 
As áreas científicas podem parecer difíceis aos mais jovens. Como podemos aproximá-los da Ciência e mostrar-lhes que também têm lugar neste mundo?
A cultura científica ainda tem um longo caminho a percorrer a nível mundial. É crucial que os estudantes contactem com a Ciência de uma maneira leve e divertida desde o ensino básico. Para desmitificar algumas ideias preconcebidas e aproximar os mais novos da Ciência, tenho participado no projeto “Cartas com Ciência”, através do qual trocamos correspondência entre alunos da CPLP. É um projeto muito bonito que tem dado muitos frutos na divulgação da Ciência em contexto escolar. 

Ap-s-8.jpg
​
SABIA QUE?

  • Com a descoberta do bosão de Higgs, foi possível completar o Modelo Padrão da Física de Partículas, que descreve as interações entre as partículas da matéria. Estas partículas só representam 5% do nosso Universo. Ou seja, 95% do Universo é composto por matéria ou energia escura que ainda é desconhecida.
  • Utilizando hélio, o LHC é arrefecido a uma temperatura ainda mais baixa do que a do espaço sideral: cerca de 1,9 kelvin, o equivalente a −271,3 °C.
  • Em 2009, um pássaro deixou cair um pedaço de baguete numa subestação elétrica ao ar livre do LHC, provocando um disparo térmico que aqueceu uma secção do acelerador de −271,3 °C até à temperatura ambiente.
  • A World Wide Web, que todos utilizamos diariamente, foi inventada no CERN em 1989 por Tim Berners-Lee, para ajudar os físicos de todo o mundo a partilharem dados.
  • Apesar de biliões de neutrinos atravessarem constantemente o nosso corpo, é provável que, ao longo de toda a vida, apenas um ou dois interajam com a matéria que o constitui.