Estávamos em 1994. Recordo-me de des
cer na paragem de autocarro próxima do campus de Gualtar e de me deparar com um cartaz publicitário de uma marca de cerveja famosa a dizer “O início de um final feliz”. Fez-me sorrir… percebi naquele momento que tinha feito a boa escolha e que iria viver
.
O nosso querido professor Luís Lobo-Fernandes, de Ciência Política. Um professor com uma capacidade extraordinária de inspirar os seus estudantes, pela clareza e paixão com que explicava os temas mais complexos, pelo seu rigor intelectual e pela forma envolvente como ligava a teoria política à realidade contemporânea. As suas aulas promoviam sempre o pensamento crítico, o debate informado e a curiosidade académica.
. Muito grata!
A preparação dos colóquios de Relações Internacionais Culturais e Políticas (RICP) era uma verdadeira aventura e uma excelente oportunidade para nos envolvermos numa tarefa comum e com temas muito interessantes. Também recordo “com muito carinho” [risos] as noitadas passadas com a “malta” no Sardinha Biba, no Pópulo, no Theatro Circo, na Associação Académica e no Enterro da Gata. Tantas memórias…
"Foram quatro anos inesquecíveis", recorda
De que forma a UMinho contribuiu para quem é hoje?
A UMinho teve um papel determinante em termos pessoais e profissionais. Para além da formação académica sólida, foi um espaço de crescimento pessoal, pensamento crítico e contacto com diferentes perspetivas do mundo. Ao longo do meu percurso, desenvolvi competências essenciais como a capacidade de análise, o rigor intelectual, o espírito crítico e a autonomia no pensamento. Aprendi a questionar, argumentar de forma fundamentada e relacionar a teoria com os desafios da realidade contemporânea. Estas aprendizagens continuam a acompanhar-me ainda hoje, influenciando a forma como encaro os problemas, tomo decisões e participo na sociedade. Pessoalmente, marcou uma fase fundamental de crescimento. Cheguei a Braga com 18 anos e, como é natural, foi um período de aprendizagem não só académica, mas também de amadurecimento. Aprendi a tornar-me mais autónoma, responsável e confiante, a lidar com desafios e a tomar decisões de forma mais consciente and last but not least fiz amizades que resistem até ao dia de hoje. Somos família, onde quer que estejamos e por mais anos que possam passar.
O que a levou a escolher o curso de Relações Internacionais?
Nasci em África, mais precisamente na Zâmbia, e vivi em países como o Botswana e a Tanzânia. Até aos 16 anos, aproveitei para conhecer vários países nas viagens que fazia. Estas experiências em ambientes multiculturais moldaram a minha abertura ao mundo, a curiosidade por realidades diferentes e a preocupação com as dinâmicas internacionais. Sempre quis trabalhar num contexto internacional, onde pudesse interagir com diferentes culturas e desafios globais. O curso de Relações Internacionais apresentou-se, por isso, como a escolha mais alinhada com o meu background, os meus interesses e as minhas ambições profissionais.
Turma de Relações Internacionais - Ramo Relações Culturais e Políticas (1994-1998). Gisela Santos (segunda fila, primeira à direita) ao lado do professor Luís Lobo-Fernandes
Zâmbia, Botswana, Tanzânia… uma verdadeira cidadã do mundo
O seu percurso levou-a até Bruxelas e ao Conselho Europeu da Inovação. Foi planeado ou feito de oportunidades inesperadas?
O meu percurso desde a saída da UMinho levou-me naturalmente até Bruxelas, um contexto profundamente ligado às dinâmicas europeias e internacionais que sempre me interessaram. Após a licenciatura, optei por apostar na vertente europeia, prosseguindo os meus estudos de mestrado no Colégio da Europa, na Polónia, uma experiência orientada para a União Europeia e para a compreensão aprofundada das suas políticas e instituições. Embora tivesse a ambição de trabalhar num ambiente internacional, o meu trajeto não foi rigidamente planeado, tendo-se construído de forma progressiva, através de oportunidades que fui sabendo aproveitar.
Que experiências profissionais foram decisivas?
Iniciei o meu percurso em representação institucional, como estagiária na Comissão Europeia, passando depois para o Departamento Económico da Embaixada de Portugal e, ainda, para o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional da Comissão Europeia. Esta experiência acumulada conduziu-me ao Conselho Europeu da Inovação (CEI), onde hoje trabalho diretamente com inovadores, start-ups e PME europeias, apoiando a sua internacionalização e a ligação a ecossistemas globais. Olhando para trás, diria que este percurso resulta de uma combinação entre uma orientação clara para o contexto internacional e a capacidade de transformar oportunidades inesperadas em etapas sólidas de crescimento profissional.
Em que consiste o seu trabalho como project innovation advisor no dia-a-dia?
O meu trabalho centra-se no apoio direto a inovadores, start-ups e PME financiadas pelo CEI, ajudando-as a transformar as suas inovações em impacto real no mercado. As minhas funções passam por identificar as necessidades estratégicas das empresas e ligá-las a oportunidades concretas de crescimento, nomeadamente através do acesso a investidores, grandes empresas, parceiros estratégicos e serviços especializados. Coordeno e acompanho a participação das empresas em iniciativas internacionais, como feiras e eventos globais, e trabalho de perto com uma rede alargada de parceiros de ecossistemas de inovação na Europa e a nível internacional. Asseguro ainda a gestão e a dinamização de comunidades de parceiros do CEI, contribuindo para criar pontes eficazes entre a inovação europeia e mercados internacionais. Trata-se de um trabalho muito dinâmico, que combina visão estratégica, coordenação operacional e contacto permanente com diferentes atores do ecossistema de inovação europeu e global.
Quais são hoje os grandes desafios da investigação e da inovação, a nível europeu?
Atualmente, um dos grandes desafios da investigação e da inovação a nível europeu é transformar o seu enorme potencial científico e tecnológico em inovação concreta com impacto no mercado. A Europa é extremamente forte na geração de conhecimento, ideias e tecnologias de rutura, mas continua a enfrentar dificuldades em levar essas inovações do laboratório até à escala industrial e comercial. A “lacuna entre a ideia e o mercado” continua a ser um obstáculo central, muitas vezes associada à dificuldade de acesso ao financiamento de risco, à fragmentação dos ecossistemas de inovação, à complexidade regulatória e à dificuldade em escalar empresas inovadoras num mercado global altamente competitivo. Acrescem ainda desafios estruturais como a necessidade de reforçar a colaboração entre investigação, indústria e investimento privado, de garantir a retenção de talento na Europa e de assegurar que a inovação contribui para responder a grandes transições globais, nomeadamente a transição verde e digital e a autonomia estratégica europeia. É precisamente neste contexto que a criação do CEI e os seus programas de financiamento assumem um papel fundamental no contexto atual, ao apoiar a inovação de risco e a inovação ao longo de todo o percurso de desenvolvimento (da investigação ao mercado) e ao reforçar os ecossistemas europeus para que as tecnologias de rutura se traduzam em crescimento económico, competitividade e impacto societal.
Caricatura criada por Inteligência ArtificialBruxelas respeita a ciência produzida em PortugalComo é vista a ciência produzida em Portugal? A partir de Bruxelas, a ciência feita em Portugal é vista com respeito. Existe um reconhecimento claro da qualidade científica, da competência técnica e da forte capacidade de colaboração em projetos europeus. Portugal é frequentemente associado a equipas bem preparadas, fiáveis e integradas em redes internacionais. Portugal tem sido também bem-sucedido na participação em instrumentos altamente competitivos, como os do CEI. Ainda assim, continua a integrar o grupo dos países de widening, o que reflete não uma falta de qualidade, mas sobretudo um potencial ainda por explorar plenamente. Os resultados alcançados são positivos, mas o número de empresas apoiadas continua aquém do potencial existente, sobretudo tendo em conta a qualidade da investigação e do talento disponível.
Que lugar ocupa a UMinho nesse panorama?A UMinho é reconhecida como uma
instituição dinâmica, moderna e fortemente internacionalizada, com uma ligação consistente à inovação, à investigação aplicada e ao tecido empresarial. Essa combinação posiciona a UMinho como um fator-chave no sistema científico e de inovação nacional, com grande potencial para reforçar ainda mais a sua presença e o seu impacto no contexto europeu.
Que conselho deixaria aos estudantes que sonham com uma carreira internacional?A quem sonha com uma carreira internacional diria para manterem uma mente aberta e curiosa. A exposição a diferentes culturas, realidades e perspetivas, seja através dos estudos, de experiências internacionais ou do trabalho é um enorme fator de crescimento pessoal e profissional. Não é necessário ter tudo planeado desde o início. O meu percurso foi construído passo a passo, combinando escolhas conscientes com oportunidades inesperadas que fui aprendendo a reconhecer e aproveitar. Ter iniciativa, persistência e coragem para
sair da zona de conforto é o que faz a diferença. Diria também para
não terem medo de arriscar e acreditar que um percurso internacional começa muitas vezes com pequenas decisões.

Tanzânia (agosto de 1992)