Naturais de Guimarães, Elisa Castro Rocha e João Duarte cruzaram-se pela primeira vez no curso de Engenharia de Sistemas e Informática. Já depois dos 40 e com quase duas décadas de vida em comum, decidiram emigrar: primeiro para Londres e, mais tarde, para Paris, cidade onde hoje vivem. Elisa dedica-se à investigação na Universidade de Hasselt, enquanto João trabalha como analista de negócio na Autoridade Bancária Europeia.São ambos de Guimarães. Já se conheciam antes de entrar na UMinho?Elisa: Curiosamente, não nos conhecíamos antes. Descobri que o João era de Guimarães porque um dia me ultrapassou numa viagem de carro de regresso a casa. Depois disso, travámos conhecimento num pequeno café que existia à entrada de Gualtar onde os estudantes de Guimarães costumavam parar para um shot de cafeína antes da aula das 8h00. Ficámos amigos a partir daí, mas cada um com os seus relacionamentos da altura.
Optaram pela Licenciatura em Engenharia de Sistemas e Informática (LESI). O que vos levou a escolher esta área e que perspetivas tinham para o futuro?Elisa: Ingressámos na Universidade do Minho em 1989/90, aquando da implementação da famosa Prova Geral de Acesso ao Ensino Superior. Escolhi LESI porque sabia que incluía no seu programa várias disciplinas ligadas à Matemática. O curso era recente e promissor, numa altura em que se avizinhava um “boom” tecnológico. Parecia ser uma formação com muito futuro. Em 2003, candidatei-me à licenciatura em Matemática Aplicada, uma área que me fascina desde pequena.
João: Como já tinha seguido no secundário uma área que envolvia o estudo da informática, acabou por ser natural continuar. O curso na UMinho era bastante conceituado e era próximo de casa. Uma vez que durante o ensino secundário já tinha estudado fora de casa noutra cidade, preferi manter-me por perto desta vez.
Que memórias guardam da vossa vida académica?Elisa: Para além do Clube 84 e do Café Vianna... foram anos intensos de muito trabalho. O curso abrangia um leque variado de disciplinas e os três primeiros anos não foram fáceis. Tive a oportunidade de conhecer pelo caminho colegas e professores com personalidades diversas, o que acrescentou valor ao meu percurso. A UMinho deu-me amizades que mantenho até hoje.
João: Ainda me recordo do meu primeiro dia, com muita confusão e um anfiteatro a abarrotar com centenas de estudantes. Lembro-me de pensar que ia ter de aguentar aquela confusão durante todo o curso [risos]. Cheguei a fazer parte de uma das tunas universitárias: a irreverente Ordem Profética da UMinho (OPUM DEI).
Após a saída da UMinho, como evoluíram os vossos percursos profissionais?
Elisa: O meu percurso foi variado. Trabalhei apenas quatro anos na área de Engenharia de Sistemas e Informática, tendo passado depois para o Ensino. Durante o curso de Matemática Aplicada, a professora Estelita Vaz incentivou-me a avançar para o doutoramento. Como sempre tive uma enorme paixão pela investigação, acabei por seguir o seu conselho. À professora, um bem-haja pela força! Candidatei-me ao doutoramento em Bioestatística na Universidade de Santiago de Compostela, formação que me abriu portas como investigadora na University College London e como estatística da OCDE, em Paris. Atualmente, investigo o impacto das alterações climáticas na saúde no Departamento de Data Science da Universidade de Hasselt, na Bélgica, embora viva em Paris.
João: Sempre trabalhei em áreas relacionadas com tecnologias e sistemas de informação, inicialmente na indústria do retalho, mais tarde nas telecomunicações e no setor bancário. Sou estatístico na Autoridade Bancária Europeia (EBA), entidade responsável pela coordenação da regulação do setor da banca a nível europeu.
No cortejo académico da UMinhoO desafio de começar de novoDecidiram emigrar para França já depois dos 40 anos - uma fase em que muitos procuram estabilidade. O que motivou essa decisão?Elisa: Passei algumas temporadas na Alemanha durante o doutoramento e adorei essa experiência de viver fora, de conhecer novas culturas e de diversificar o pensamento. E sempre disse ao João que, se surgisse uma oportunidade de fazer investigação no estrangeiro, a aceitaria. A oportunidade de emigrar surgiu primeiro ao João, que foi convidado para trabalhar na EBA, em Londres. Decidimos avançar nesta aventura juntos: nós na casa dos 40 anos e a nossa filha com 15 anos. Eu ia defender a tese de doutoramento naquele ano e a Gabriela estava no 9º ano, quase a terminar o terceiro ciclo. Era o timing perfeito! Parecia que estava tudo alinhado para correr bem! E assim foi: primeiro estivemos em Inglaterra e depois em França.
João: Apesar de sempre ter vivido em Guimarães, nos últimos anos passava cerca de 70% do meu tempo em Lisboa, onde trabalhava no Banco BPI em processos de IT relacionados com a gestão do risco de crédito. Ou seja, era um “deslocado” dentro do meu próprio país. Trabalhar em Lisboa ou em Londres tinha, para mim, praticamente o mesmo impacto. O conhecimento que tinha da EBA surgiu da necessidade de conhecer as normas técnicas e os requisitos regulatórios comuns aos bancos europeus. Foi assim que, quando surgiu a oportunidade, deixei de trabalhar do lado do “regulado” para passar para a área da regulação e supervisão do sistema financeiro europeu.
Como lidaram com o risco de recomeçar noutro país?Elisa: Estávamos tão motivados que procurávamos encarar tudo de forma positiva, embora tivéssemos alguns receios. Larguei a minha atividade profissional e fui para Londres para acompanhar o João, sem ter ainda um emprego em vista nem saber muito bem por onde começar. Também nos preocupava a adaptação da nossa filha: uma nova língua, um sistema de ensino diferente e a necessidade de construir novas amizades. Ainda assim, tudo o que este recomeço nos trouxe de positivo, como as pessoas que conhecemos, o contacto com diferentes culturas e formas de vida, ajudou-nos a ultrapassar os receios iniciais e a seguir em frente.
Quais foram os maiores desafios na adaptação?João: Encontrar casa não foi fácil. Os contratos de arrendamento podem rapidamente transformar-se numa verdadeira dor de cabeça, sobretudo porque o processo em Londres é bastante diferente do de Paris. Há muitos aspetos a ter em conta e vários obstáculos a ultrapassar, como a necessidade de apresentar referências, algo complicado quando acabas de chegar a um país novo. Além disso, alguns serviços são bastante burocráticos. Lembro-me, por exemplo, de situações em que, para abrir uma conta bancária, nos pediam uma fatura de um operador de telecomunicações, enquanto o próprio operador exigia uma conta bancária para iniciar o contrato.
Como é o dia a dia da Elisa e do João em Paris?Elisa: Para além do trabalho, gostamos muito de sair e conviver com os amigos que fizemos, tanto franceses como de outros países, que, tal como nós, vivem como expatriados. Em Paris há sempre algo para descobrir e partilhar. Aproveitamos muito os museus, as exposições artísticas e a vida urbana em geral. Além disso, por ser tão central na Europa, é muito fácil viajar para outras cidades europeias, algo que tentamos fazer sempre que temos oportunidade.

Elisa e João na palestra "Os Desafios de uma Carreira Internacional”, promovida pela Reitoria no âmbito da iniciativa “Alumni UMinho @ Paris”