Formada em Gestão de Empresas, Isabel Silva iniciou a sua carreira aos 22 anos num balcão de atendimento do Banco Montepio. Hoje integra a administração da instituição e é uma das figuras de destaque na liderança do setor bancário em Portugal.

Lembra-se do seu primeiro dia na UMinho?
Lembro‑me perfeitamente! Integrei o grupo de caloiros que virou “cobaia” da Prova Geral de Acesso, um novo modelo de acesso ao ensino superior que nos obrigou a realizar provas adicionais de português e cultura geral. As aulas só começaram em janeiro [de 1990] por esse motivo. Apesar dessa entrada tardia, sentia‑se que a Universidade aguardava os novos estudantes com entusiasmo. Fomos bem recebidos e tivemos uma praxe intensa, divertida e marcada por um forte espírito de integração e camaradagem. Era um novo mundo para mim: novos espaços, novas pessoas, novas rotinas e uma enorme sensação de descoberta. Recordo esse primeiro dia com um profundo sentimento de orgulho, por ter chegado ali, por ter iniciado uma nova etapa da minha vida e por fazer parte de uma Academia que, desde o primeiro momento, pressenti que me marcaria profundamente, não apenas no plano académico, mas também pessoal.
 
Que episódios a marcaram mais?
Tenho saudades de muito, ou talvez de quase tudo, da minha vida académica. Vivi essa fase com muita intensidade, procurando equilibrar o estudo com o convívio, o divertimento e as amizades que se foram criando. Recordo com particular carinho o momento das matrículas no Largo do Paço, um espaço icónico para os estudantes da época. A Semana do Caloiro e o Enterro da Gata eram os pontos altos do ano académico. As idas ao Clube 84, ao Sardinha Biba e ao Santoinho também ficaram registadas na minha memória. Tive a sorte de fazer parte de um grupo de amigos excecional, numa turma muito acolhedora, e de ter as pessoas certas ao meu lado. São essas relações, mais do que qualquer outro aspeto, que fazem com que as saudades desse tempo continuem tão vivas.
 
E as aulas? Os professores?
Foi nos grandes auditórios de Gualtar que tive o cadeirão “Matemáticas Gerais” e a disciplina “História das Ideias Políticas e Sociais”, que me ajudaram a desenvolver um pensamento mais crítico e a ter uma visão mais abrangente da sociedade. A disciplina que mais dificuldades me trouxe foi “Contabilidade Geral”. Sem bases na área, senti‑me muitas vezes perdida, mas consegui fazê-la com a ajuda do Professor Armandino, já falecido. Era um docente rigoroso, de palavras parcas, mas assertivas, e com um humor muito próprio. No final do curso, escreveu-me na fita da pasta uma mensagem muito especial: “Agora que vais ser lançada às feras, espero que sejas tu a devorá‑las. Que nunca seja o contrário”. Não compreendi totalmente o significado na altura, mas foi ganhando sentido com o tempo. Destaco ainda o Professor Rocha Armada, muito exigente e próximo dos alunos. Ainda hoje mantemos contacto.

“Gestão de Empresas” foi a sua primeira opção?
Sim. Sempre me interessei por gestão de pessoas, dinâmicas comportamentais e desafios nas organizações. Foi uma mudança radical no meu percurso, já que até ao 12.º ano toda a minha formação tinha sido na área da saúde. Sem formação de base em contabilidade ou economia, decidi acreditar na minha capacidade de aprendizagem e adaptação. Foi um importante exercício de superação que contribuiu para o meu crescimento pessoal e académico. Tinha apenas 17 anos e não tinha grande consciência do que queria fazer no futuro e do impacto que escolhas como estas podiam ter a longo prazo. Hoje, sei que foi uma aposta vencedora! A licenciatura deu‑me uma base sólida e transversal, essencial durante todo o meu percurso e moldou a forma como encaro a liderança, a gestão e o trabalho em equipa.

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“Agora que vais ser lançada às feras, espero que sejas tu a devorá‑las”
 
Como foi a transição para o mercado de trabalho?
Foi bastante desafiadora! Quando concluímos uma licenciatura, sentimos um grande orgulho no percurso realizado, mas não podemos deixar que esse sentimento se sobreponha à humildade necessária para continuar a aprender. A entrada no mercado de trabalho confronta‑nos com uma realidade muito diferente da académica. Os desafios são mais exigentes, as responsabilidades são reais e as nossas decisões têm impacto real. A Universidade ajuda-nos a desenvolver competências importantes, mas isso não chega. É fundamental manter uma mente aberta, aceitar o erro como parte do processo e adotar uma postura de aprendizagem constante. Tive a sorte de integrar uma equipa que me acolheu e apoiou, o que tornou esta transição mais tranquila e motivadora. Esse início foi determinante para o meu percurso.
 
Quando entrou no Montepio alguma vez imaginou que chegaria à administração?
Não, de todo! Comecei a trabalhar no Banco Montepio aos 22 anos, depois de enviar muitos currículos, participar em concursos e fazer várias entrevistas. Foi o meu primeiro emprego. Comecei num balcão de atendimento, numa função muito operacional e com pouca informatização. Os balcões eram o principal ponto de contacto com o Banco. As pessoas iam ao Banco para tratar de tudo: não existiam canais digitais, para além da Chave 24 e das caixas Multibanco. Atendíamos dezenas de clientes por dia. Essa função exigia um conhecimento profundo dos produtos e processos, muita prática e um elevado grau de rigor, pois os erros tinham impacto imediato. Ao longo dos anos, a Banca sofreu uma grande transformação tecnológica e organizacional, exigindo constante adaptação e aprendizagem. Fui passando por praticamente todas as funções da rede comercial, o que me deu uma visão global do negócio e permitiu crescer com o contributo de diferentes profissionais.
 
Quais foram os principais obstáculos encontrados?
Surgiram muitos obstáculos, como em qualquer percurso. O importante é saber superá-los. Considero que as minhas principais vantagens competitivas foram a forte aposta na formação contínua, o foco constante no trabalho em equipa e no crescimento das pessoas, sempre com muita partilha e com orientação para resultados. Sem um equilíbrio pessoal sólido, dificilmente teria sido possível construir o percurso que construí.
 
Sentiu mais dificuldade em progredir por ser mulher?
Ser mulher continua a representar um desafio adicional, sobretudo em determinadas fases da vida, como quando se constitui família. No meu caso, tive a felicidade de contar com um forte apoio familiar que me permitiu aceitar novos desafios. Isso não significa que o percurso não tenha sido exigente. As mulheres tendem a querer ser exemplares em todas as dimensões, como mães, companheiras e profissionais, o que nem sempre é possível. É importante focarmo-nos no que nos define, naquilo que é a nossa “marca” e investir aí a nossa energia. As empresas estão cada vez mais conscientes destas questões e, por isso, têm adotado práticas e modelos de trabalho que promovem maior equilíbrio, produtividade e realização pessoal. Felizmente.


A carreira constrói-se passo a passo
 
Como é o seu dia-a-dia como administradora?
Um administrador bancário assume um conjunto muito alargado de responsabilidades. De forma simples, diria que passa por gerir o Banco, garantindo que cumpre todas as leis e regras aplicáveis, que é uma instituição segura e financeiramente sólida e que gera resultados positivos de forma sustentável. Esta função exige uma gestão sã e prudente, salvaguardando os interesses dos clientes, dos depositantes, dos investidores, dos credores e do próprio sistema financeiro. Requer muita disponibilidade, foco e sentido de responsabilidade, mas é também um processo contínuo de melhoria e aprendizagem. É precisamente essa exigência permanente, aliada à possibilidade de gerar impacto real nas pessoas, nas equipas e na instituição, que torna esta função tão desafiante e motivadora.
 
É das poucas mulheres no topo do setor bancário em Portugal. O que significa para si?
Representa um enorme sentido de responsabilidade e um orgulho. É um reconhecimento do meu percurso, do trabalho consistente e da confiança que sempre me foi concedida ao longo dos anos. Em simultâneo, considero que também existe uma dimensão de representatividade, num setor onde existem poucas mulheres em cargos de administração. Espero contribuir com o meu exemplo e o meu trabalho, demonstrar que a liderança de mulheres acrescenta valor, podendo ser diferenciadora, quer pelos resultados, quer pela forma como se lidera, com exigência, proximidade e compromisso.
 
Que conselhos deixaria aos jovens que estão agora a entrar no mercado de trabalho? E que competências valoriza mais na hora de contratar?
Na Banca, tal como noutras indústrias, o conhecimento técnico é muito importante, mas não basta. É essencial apostarem continuamente no desenvolvimento de competências como saber comunicar, trabalhar em equipa, colaborar com diferentes departamentos e trabalhar com pressão, mantendo a serenidade em contextos exigentes. A forma como nos relacionamos com os outros e encaramos os desafios faz muitas vezes a diferença entre um percurso regular e um percurso consistente e reconhecido. Também é importante investirem na formação. Não tenham receio de pedirem ajuda nem vergonha de começarem por funções mais operacionais. A carreira faz-se passo a passo, com consistência, rigor e uma atitude positiva, criando um percurso sólido, com credibilidade e sempre em crescendo.
 
Onde se vê daqui a 10 anos?
Imagino‑me a manter um percurso com sentido, propósito e impacto. Continuar a trabalhar no meu país é algo que valorizo muito, não apenas do ponto de vista profissional, mas também pessoal e humano. Acredito que só faz verdadeiramente sentido evoluir e crescer quando conseguimos alinhar realização pessoal, contributo para a sociedade e impacto nas pessoas com quem trabalhamos e para quem trabalhamos. Independentemente das funções que venha a desempenhar, vejo‑me a continuar a aprender, a partilhar conhecimento, a desenvolver pessoas e a contribuir para organizações mais responsáveis, humanas e próximas. Para mim, o sucesso nunca foi apenas uma questão de cargos ou funções.

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O outro lado de…

Um filme. “Uma mente brilhante”, dirigido por Ron Howard.
Uma série. “Peaky Blinders”, criada por Steven Knight.
Um livro. “Memorial do Convento” de José Saramago.
Uma banda. Pearl Jam.
Um passatempo. Ler e passear o meu cão.
Uma personalidade. Pode ser polémica, mas aqui vai: Margaret Thatcher.
Um prato. Tenho efetivamente o problema de gostar de todos, mas acho que o cozido à portuguesa está no topo da lista.
Um país. Portugal.
Um momento. O nascimento da minha filha.
Um lema. O verdadeiro resultado é o impacto que deixamos nas pessoas.