Que fim dar a uma peça de vestuário usada, em excelente condição provavelmente por ter sido vestida uma única vez ou ter ficado esquecida num gavetão? Se a peça está deteriorada o seu fim mais provável é o lixo, mas se mostrar boa condição não faltam pontos de recolha, instituições e empresas envolvidas no negócio de vestuário e calçado em segunda mão.
Uma forma confortável e consciente de lhe dar uma nova vida é colocar essa peça num dos inúmeros contentores disponíveis para recolha de vestuário e calçado. Noutras ocasiões, se lhe acontecer encontrar o contentor imundo e cheio, e aquilo que quer entregar está novo, provavelmente é melhor oferecer essa peça a uma instituição que possa usufruir directamente desse benefício, ora entregando-a a alguém necessitado ou encaminhando esse bem para o mercado.
Os circuitos de recolha de vestuário e calçado em segunda mão estão bem mais profissionalizados do que se imagina. São geridos como um negócio. Da mesma forma que a recolha e reciclagem de vidro, papel e embalagens é um negócio de milhões. O circuito de vestuário e calçado mostra, contudo, algumas especificidades.
Imaginemos um bom casaco produzido numa das nossas fábricas têxteis aqui à volta. Bons materiais, acabamento perfeito, aplicações específicas que lhe acentuam a graça e o estilo vincadamente vintage. O casaco vai para o mercado final com a marca própria de um retalhista. Neste caso, a marca é espanhola embora pareça italiana, mas poderia também ser francesa, alemã ou inglesa. O casaco é vendido como uma peça de moda sofisticada. Mas como peça de moda que é, arrisca-se a passar rapidamente de moda. Quem o comprou deu-lhe pouco uso. Limitou-se a usá-lo uma ou duas ocasiões e deixou de engraçar com ele. Decidiu oferecer o casado colocando-o num contentor.
Ao contrário do que a maioria de nós pensa, de entre aquilo que colocamos no contentor só uma muito pequena parte vai gratuitamente para uso de pessoas desfavorecidas. O resto entra num novo mercado. Começa aqui uma outra vida para o nosso casaco vintage. Uma verdadeira aventura.
Quem o recolhe do contentor é normalmente uma empresa ativa que possui um circuito bem estruturado para o efeito. Não raras vezes, este circuito envolve a colaboração de autarquias e associações locais, ora concedendo autorizações, apoios logísticos ou permitindo o uso de marcas que conferem credibilidade social à operação. As autarquias prestam assim um serviço social ao permitir a colocação de pontos de recolha.
As associações e instituições sociais recebem uma parte dos benefícios. As empresas convertem os artigos doados em dinheiro, gerando receita e animando uma atividade económica.
Como referi, excepcionalmente, o casaco pode ser oferecido gratuitamente.
Mas o mais provável é entrar num circuito internacional com milhões de outras peças de vestuário e calçado recolhidas em vários países. Peças que necessitam de ser preparadas para voltar ao circuito comercial. Muito provavelmente, o casaco será transportado num contentor por via marítima para África. Numa qualquer fábrica, talvez localizada na Tunísia, o vestuário é separado e acondicionado por lotes. Algumas peças vão para reciclagem por não terem a qualidade necessária para voltar ao mercado. Poderão ser enviadas para a Índia ou Paquistão onde serão usadas para produzir outros bens como, por exemplo, material de isolamento. O resto é classificado em função do seu estado, qualidade e outros indicadores como, por exemplo, possuir ou não uma marca. É tudo vendido ao quilo para diferentes mercados. Algum dele fica na própria Tunísia onde aproximadamente metade do vestuário aí vendido são peças em segunda mão. Muitas outras peças terminarão noutros países como por exemplo o Senegal, país que consome aproximadamente um terço de todo o vestuário em segunda mão.
O nosso casaco vintage faz parte duma seleção de peças de qualidade, mais raras e com design e procura específica. Não fica em África. Será comprado por uma boutique de moda parisiense especializada em vestuário vintage de qualidade em segunda mão.
Foi produzido em Portugal, comercializado inicialmente em Espanha, reacondicionado na Tunísia, novamente comercializado, agora em segunda mão, em França. É um casaco chique. Está novamente na moda. É personalizado, verdadeiramente personalizado porque é único! Quem o comprou em Espanha fartou-se rapidamente dele, mas em França, na capital da moda, depois duma passagem pela Tunísia, readquiriu uma segunda vida. Sofisticada. Passeia-se agora cheio de estilo pelo Quartier Latin.
Crónica inspirada e baseada parcialmente em dados da France 24 transmitidos na reportagem "The Second life of old clothes abroad" da autoria de Sandro Lutyens e Hamdi Tlili.
"Os circuitos de recolha de vestuário e calçado em segunda mão estão bem mais profissionalizados do que se imagina. São geridos como um negócio. Da mesma forma que a recolha e reciclagem de vidro, papel e embalagens é um negócio de milhões."