O Big Brother 2020 (BB2020), acredita Nuno Santos, novo director de Programas da TVI, “vai ser o programa mais marcante de 2020”. Este será o quinto BB da TVI, que teve outras edições especiais com famosos e depois quintas com celebridades, casas com segredos e cerca de 60 reality shows nas últimas décadas. “O Big Brother de 2000, que acompanhei a partir da SIC, foi um programa absolutamente revolucionário”, reconheceu Nuno Santos aos jornalistas na semana passada. A concorrente SIC seguiria, contrafeita, na peugada da TVI, e mesmo a RTP acolheria a reality TV noutros formatos - é que este género não se faz apenas de pessoas fechadas numa casa na expectativa de con Çito, relações amorosas ou excentricidade.
Nos últimos 20 anos, houve cerca de 450 edições do BB em mais de 50 países — há um BB Kosovo, um BB Somália ou um BB Síria. Em Portugal, povoava toda a TVI, com uma “minigrelha dentro da grelha”, como lhe chama Felisbela Lopes. O então director de Programas, José Eduardo Moniz, inventou-a para rentabilizar um formato tão caro e familiarizar o público com este olhar intenso e panóptico.
Jogo de nervos
Mas a chegada do BB, apresentado por Teresa Guilherme, foi tudo menos pacífica. “Um movimento na sociedade portuguesa tinha figuras tão eminentes como a dra. Maria Barroso que queriam impedir que o programa fosse transmitido”, recorda Nuno Santos ao PÚBLICO. Na SIC, houve uma pulsão semelhante contra o programa concebido pelo holandês John de Mol, criador da Endemol e de formatos como o programa de talentos The Voice.
“Piet-Hein [Bakker, o fundador da Endemol Portugal] contou-me, e confirmei posteriormente com [o então director de Programas da SIC] Emídio Rangel, que Rangel quis comprar o formato Big Brother para não o exibir”, lembra Felisbela Lopes, autora do livro de entrevistas Vinte Anos de Televisão Privada em Portugal (2012), do qual surgiu a revelação. A rejeição do BB por Rangel e pela então líder SIC, em pleno advento bélico dos canais privados, ficou para a história.
O final do BB original teve um share (a parcela de pessoas a ver TV num dado momento) de cerca de 70% a 31 de Dezembro de 2000. Moniz apostara na produção de novelas nacionais e remodelara o noticiário da TVI. Depois, o reality show “transformou o último canal no líder de audiências em pouquíssimo tempo”, diz Felisbela Lopes, introduziu-se nos noticiários com “repercussões para todo o jornalismo” e, ao expor intimidade, impactou “outras dimensões da nossa vida e outros programas”. Em 2001, a SIC ripostava com Acorrentados, mas um prolongamento de um jogo de futebol atrasou tudo. Emídio Rangel “não pôs no ar o Jornal da Noite mas sim a [apresentadora] Filipa Garnel a acorrentar um concorrente”, recorda a investigadora. “Isso diz muito do jogo de nervos que foi na altura.”
Entre a sarjeta e a inovação O BB dos EUA foi Survivor, programa que já vai na 40.ª edição. Em Espanha, já houve 29 Gran Hermanos. No Reino Unido, os reality shows são uma indústria, mas o BB, em que até um deputado trabalhista entrou, acabou em 2018. Na despedida, o seu director criativo, Philip Edgar Jones, lembrou que “podem descartá-lo como o programa que arrastou a televisão para a sarjeta”, como escreveu no Guardian, mas que ele vem de um contexto de “inovação explosiva”, no boom das dot-com e do negócio da Internet. Algures entre a sarjeta e a inovação, o BB tornava-se a ponta de um icebergue - o género “realidade”.
“Há elementos de reality desde que há televisão, e mesmo rádio”, diz Ruth Deller, autora de Reality Television: The TV Phenomenon that Changed the World (2019). “Nos últimos 20 anos não só há mais formatos como uma proliferação de canais, que precisam de conteúdos.” É por isso que até a Net Çix já tem os seus reality shows, Love Is Blind ou The Circle - e as fronteiras da reality TV podem esticar-se até abranger fenómenos recentes como Tiger King. Ou o conceituado concurso de culinária Masterchef (também da Endemol), num grande bolo que envolve especialistas em furúnculos (Dr. Pimple Popper), concursos durante o parto (Labour Games) ou em que se escolhe um parceiro pelo seu corpo nu (Naked Attraction). Há amish e menonitas largados na sociedade norte-americana contemporânea (Breaking Amish), famílias polígamas ou numerosas, trocas de esposas, programas médicos para corrigir doenças ou cirurgias plásticas.
“Há modas: tínhamos programas como Os Apanhados e num momento de viragem para a ascensão da reality TV, a greve dos argumentistas nos anos 1990. Foi quando surgiu a ideia de Cops e a indústria percebeu que não precisava de guionistas e actores. Depois avançámos para o BB, Survivor e a era da competição reality, depois os ‘talent shows’, depois o fenómeno ‘scripted’ com celebridades em sua casa”, resume Deller, que é professora na Universidade Sheffield Hallam. A realidade é relativa na reality TV, com guiões e controlo ou dos programadores ou dos protagonistas. “Os reality shows são as fake news do entretenimento”, escrevia o guionista Pedro Marta Santos na revista Sábado em 2019.
Felisbela Lopes fala mesmo de ficção quando se refere ao BB. “Os candidatos estão a representar papéis em permanência e a jogar, é o que o [sociólogo Erving] Goffman chama a apresentação do eu. É mesmo uma novela [da vida real], o chavão inicial agora é exacerbado.”
Parecia ficção, mas em 20 anos a reality TV instalou-se e expandiu-se. Dispersos por canais que vão do TLC ao E!, passando pela SIC Radical ou MTV (entre outros e só para falar em Portugal), também há franchises sobre obesos mórbidos ou concursos de misses com crianças e tantas casas que juntam jovens com álcool, quartos vigiados e fontes de conflito bronzeado. Até há um milionário autoritário que durante anos comandou um reality show de talento empresarial cuja popularidade contribuiu para o seu cargo actual bem real — Presidente dos EUA.
“São pessoas normais” Hoje à noite, o BB Zoom, a primeira fase do programa, é a adaptação do reality show à era covid-19 num país que no ano passado criticou programas como Quem Quer Casar com o Meu Filho? (TVI) e Quem Quer Namorar com o Agricultor? - este regressa esta noite à SIC enquanto na RTP1 estará uma edição especial do talent show The Voice Portugal. As críticas e o juízo moral são uma das constantes dos reality shows, que não existem sem os seus participantes. Um deles foi Cláudio Ramos, que a TVI agora catrapiscou à SIC para apresentar o programa que, diz, ajudou a torná-lo o que é hoje.
“Não gosto do preconceito, e as pessoas e a maioria dos jornalistas têm[-no], de apontar o dedo a quem é um participante de um reality show”, afirma ao PÚBLICO. “São pessoas normais, pessoas como nós.” Um participante pode procurar apenas a experiência ou um trampolim para “mediatizar os seus negócios ou a si próprio. O mundo é feito de oportunidades”, diz. “Entrei num BB, tenho um irmão que entrou numa Casa dos Segredos, e acho que foi uma das melhores coisas que fizemos”, diz Cláudio Ramos. “Se não tivesse entrado no BB há 18 anos, não estaria aqui hoje como apresentador, o meu caminho teria seguramente sido outro.”
Em 2005, Nuno Santos era director de Programas da RTP e dizia ao Correio da Manhã que, “para a generalidade das pessoas, reality show é igual a Big Brother e esse tipo de programas, em que a dignidade humana é posta em causa, a RTP não vai ter”. Ainda pensa que o BB põe em causa a dignidade humana? “Não renego o meu passado”, responde ao PÚBLICO, enquadrando a opinião no contexto de então. “Não há ninguém que esteja no BB que não queira estar, a liberdade individual prevalece.” A outra constante à volta dos reality shows é a forma como os programadores os descrevem como “uma experiência social”.
Ruth Deller reconhece logo a expressão. “Tem que ver com algum snobismo”, analisa, e “faz os espectadores sentir ‘não estou só a ver lixo, mas sim uma coisa educativa’.” Ora uma experiência pressupõe aprendizagem e conhecimento. O que aprendemos, 20 anos depois?
“Muito pouco”, diz Felisbela Lopes. “Estamos sempre a pôr em cena o mesmo enredo, como nas novelas.” O público também não aprende grande coisa. “Andamos à procura da intimidade, como se estivéssemos a espreitar pelo buraco de uma fechadura.” O voyeurismo, sempre? “Sempre.” A docente da Universidade do Minho relembra: “Não é por acaso que somos um país tão vocacionado para as redes sociais, para o Facebook, para as fotografias privadas em público, para o Instagram. É uma tendência a nível global que aqui levamos muito a sério.”
Casas de TikTok e YouTube É em parte isso que faz Nuno Santos reflectir que “hoje a vida está mais próxima do que era o BB há 20 anos”. Quando o BB foi criado, “era uma experiência social completamente distinta de tudo”; em duas décadas “a relação das pessoas com a privacidade mudou”, defende o director de Programas da TVI. “O BB é uma marca tão poderosa hoje quanto em 2000.”
A sociedade mudou, a tecnologia deu-lhe gás. Há hoje uma “tensão entre a reality TV e o online” quando “os youtubers e os tiktokers estão a tentar emular a reality TV numa casa TikTok ou de youtubers” como as criadas antes e durante a quarentena. “Mas nenhum [outro] meio dá a experiência de estar dentro disto. É uma experiência transformada em reality e não um reality transformado em experiência”, garante Cláudio Ramos.
“Nunca podemos dizer que é só um género terrível ou espantoso. Transformou a vida de pessoas para melhor em muitos casos, deu-lhes carreiras ou oportunidades, aumentou a consciência da existência de diversidade ou profissões. Mas também explorou pessoas, tratou-as mal, deu-lhes problemas de saúde mental”, diz Ruth Deller, fazendo pensar no percurso de sucesso de Cláudio Ramos ou nas notícias sobre a alegada depressão de Zé Maria, o tímido vencedor do BB de 2000.
A reality TV era inevitável? Sim. As novas tendências vêm agora da Ásia - A Máscara (SIC), por exemplo, é já um original da Coreia do Sul. A reality TV alguma vez se extinguirá? “Depende do futuro da televisão, mas as pessoas estão sempre interessadas em pessoas”, opina Ruth Deller, “seja através de televisores, do TikTok ou de realidade virtual”.
Reportagem: Público