Aos 31 anos, o fafense António Castro e Cunha é um dos primeiros graduados de Medicina na UMinho, tendo cumprido a licenciatura com mestrado integrado em 2007. Depois disso, um percurso de valorização pessoal e profissional levou-o ao seu sonho: o de exercer medicina desportiva ao mais alto nível. Já trabalhou com Nelson Évora, o seu grande ídolo desportivo. Hoje é médico especialista em fisiatria na Taipas Termal e responsável médico do Moreirense Futebol Clube, que disputa a I Liga Profissional de Futebol.

Como foi chegar à UMinho em 2001, para “estrear”​ o curso de Medicina?
Foi um mundo novo, primeiro por optar pela UMinho, numa aposta arriscada, porque achei que, sendo um projeto novo, com uma dinâmica de estudos diferente, seria uma boa escolha. Felizmente não me enganei. A sensação foi um pouco ambígua, pois fui viver para Braga, houve um corte com as raízes, mas é cada vez mais o percurso normal de qualquer jovem.
 
Medicina foi o que sempre quis?
Sim. Felizmente consegui juntar na minha atividade profissional o que sempre quis: ser médico e exercer medicina relacionada com o desporto.
 
Como se integrou na academia?
Correu tudo muito bem. Fiquei amigo do "Papa" da altura - o José Faria, com quem ainda falo regularmente -, pois como estreantes em Medicina fomos praxados pelo "Cabido de Cardeais", já que ainda não havia “doutores” no curso. Acho que foi uma sorte ser praxado por pessoas mais experientes, pois tive uma boa praxe e sou completamente favorável à praxe, faz-nos perceber tudo o que rodeia o mundo da academia. Desde que praticada sem excessos é excelente para integrar os caloiros. Mesmo aquilo que é considerado de caráter humilhante, muitas vezes tem um contexto e acaba por não ter esse cariz de humilhação.
 
Era um aluno ligado à vivência ativa?
Fui um mero participante ativo e usufruí de tudo o que me era proporcionado. Ajudei na formação do NEMUM [Núcleo de Estudantes de Medicina] e participei nas atividades dos “Gorkas”.
 
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O que aconteceu depois de sair do curso?
Quando terminamos o curso temos que passar por uma seriação, que é um teste de escolha múltipla, para responder a um conjunto de 100 perguntas, extraído daquilo a que chamamos a “bíblia da medicina”, que é o principal livro de medicina do mundo, com mais de mil páginas. A classificação desse teste permite escolher especialidades. Eu sempre quis seguir a parte de medicina física e de reabilitação – na altura, não havia a medicina desportiva – e como nunca me vi, por exemplo, como cirurgião, apostei nessa variante e felizmente a minha nota permitiu-me ir por aí.
 
Para onde foi?
Para Lisboa, estive um ano no Hospital S. José. E foi aí que conheci uma colega que era a médica responsável da região Sul da Federação Portuguesa de Atletismo, que me permitiu acompanhá-la no Centro de Alto Rendimento. Tive aí uma experiência fantástica que me proporcionou oportunidades excelentes, onde, por exemplo, a minha primeira experiência de exame físico foi com o Nelson Évora, que já era o meu ídolo e é, para mim, o exemplo maior do desporto português. Um ano depois passei a interno no Hospital de Braga, onde completei a especialidade no centro de reabilitação. O antigo responsável médico do Moreirense FC, que era lá fisiatra, convidou-me a vir para o clube e acompanhar o trabalho dele - e eu vim. Entretanto, por infelicidade, faleceu por doença e eu dei continuidade ao projeto dele no clube.
 
Como é para um jovem médico ter nos ombros a responsabilidade de um plantel profissional?
Aí reside o prazer deste trabalho. Na responsabilidade e no lutar contra o tempo, pois tudo aqui é “para ontem”. É verdade que a equipa senior joga ao fim-de-semana, mas o nosso desafio diário é tentar antecipar a recuperação o máximo de tempo possível, pois o atleta de alta competição tem que estar apto para treinar, por forma a preparar-se para os dias de competição. Por outro lado, há um acompanhamento permanente. Temos nas mãos “25 meninos dourados” que temos que acompanhar, para triar o que são queixas que merecem cuidados e atenção, ou o que são meros cansaços e desgaste que com alguma gestão de esforço se resolve. Depois, há a questão da reintegração, que exige trabalhar a confiança do atleta. Por exemplo, os estudos da Champions League dizem-nos que uma em cada cinco ruturas sofre recidiva e isto é incontornável. O nosso objetivo é trabalhar para otimizar estas estatísticas.
 
Um futebolista é um utente em permanência.
Tal e qual! Basicamente são 24 horas por dia e não é a primeira vez que um futebolista me liga à uma da madrugada a dizer-me que tem um joelho inchado ou um desconforto qualquer. Isso é reflexo de uma relação de confiança que é fundamental existir para que as coisas corram bem.
 
Que conselho daria a um aluno para atingir este patamar?
Em primeiro lugar, se me perguntarem se recomendaria o curso de Medicina da UMinho... Claramente, sim! Continuo a acompanhar o que lá se faz e é uma universidade excelente em termos de formação médica, se não é a melhor é uma das melhores do país. Depois, o curso em si é muito exigente, requer muito trabalho, estudo e organização. A vida não é só estudo e é muito fácil perdermos-nos na universidade, mas é preciso gerir essas coisas e estabelecer prioridades, porque há um tempo para tudo. Quem quiser seguir medicina desportiva tem que investir e procurar quem forma bem nestas áreas e agarrar as oportunidades que possam surgir.
 
Enquanto homem, o que há em si que vem da sua vivência na UMinho?
A universidade traz uma liberdade que exige um crescimento enquanto adulto. É uma liberdade que traz oportunidades e abre horizontes, que vão desde a vida académica à política, à liberdade de pensamento, ao conhecimento de pessoas de sensibilidades e especialidades diferentes. Eu vivi em Braga e morei com estudantes de Línguas, Gestão, Relações Internacionais e a riqueza desse domínio intelectual, num ambiente de liberdade, permite crescer muito nessa fase determinante da vida.