​António Vieira gravou o seu nome na história do doutoramento em Sistemas Avançados de Engenharia para a Indústria, que é pioneiro no país.​

Foi um momento simbólico, mas ao mesmo tempo histórico. António Vieira tornou-se a 2 de outubro o primeiro a defender uma tese no âmbito do programa doutoral em Sistemas Avançados de Engenharia para a Indústria na UMinho, desenvolvido em parceria com a Bosch Car Multimedia. O trabalho "Real-time simulation of supply chain processes suported by big data in an industry 4.0 context” teve a avaliação unânime de “Muito bom”, pela originalidade, pelo rigor e pela relevância. O momento foi presenciado pelo reitor Rui Vieira de Castro.

O estudo, explicou António Vieira ao NÓS, considerou o caso real da cadeia de abastecimento da fábrica da Bosch, em Braga, que consiste numa rede com centenas de fornecedores espalhados pelo mundo. Assim, o principal objetivo foi propor um sistema de apoio à decisão suportado por um big data warehouse e por um modelo de simulação. Dessa forma, foi utilizado o cluster de big data da Bosch, que permitiu armazenar e integrar dados de várias fontes e que são utilizados diariamente para gerir processos de negócio relevantes para o problema. Por sua vez, estes dados são fornecidos ao modelo de simulação, que reproduz as respetivas movimentações de materiais e trocas de informação. Assim, frisou António Vieira, "com esta ferramenta torna-se possível correr simulações que representam o sistema real e que permitem analisá-lo sobre várias vertentes, incluindo a possibilidade de testar cenários de risco no simulador, de forma a que seja possível ter uma abordagem pró-ativa no lugar de reagir a eventuais problemas que possam ocorrer".

A orientação da tese coube a dois professores da Escola de Engenharia da UMinho (EEUM) – Maribel Yasmina Santos, do Departamento de Sistemas de Informação, e Luís Silva Dias, do Departamento de Produção e Sistemas (DPS), que elogiou "este caso concreto de investigação direcionada para os problemas atuais da indústria”. O professor anuiu que a “exportação” deste trabalho de António Vieira pode revelar-se "de fácil aplicação”: “Se alterarmos os dados, o programa produzirá uma simulação de acordo com novos elementos, desde que estes tenham caraterísticas similares”.

João Miguel Fernandes, coordenador do programa doutoral e professor do Departamento de Informática da EEUM, explicou que a investigação “foi a demonstração de que, com um caso prático, é possível ligar modelos de simulação - para testar conjuntos de indicadores e validações - com dados que existem na empresa e que são recolhidos a todo o momento”. O docente lembrou o “volume exponencial de dados” recolhidos diariamente como sendo um dos obstáculos, mas a questão maior vai ser “automatizar o processo de simulação”. Desenvolvido o modelo de simulação, cabe agora à Bosch a sua utilização e continuidade. “Era importante que o trabalho tivesse continuidade, aliando os dados à empresa. Estamos mais próximos da solução”, garantiu Luís Silva Dias.

O júri foi composto por Ricardo J. Machado, vice-reitor da UMinho, João Miguel Fernandes, Luís Silva Dias, José Telhada, do DPS, Ana Luísa Ramos, da Universidade de Aveiro, e Jorge Bernardino, do Instituto Politécnico de Coimbra.


Programa doutoral inovador


O doutoramento em Sistemas Avançados de Engenharia para a Indústria é cofinanciado pelo programa PD-F da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), sendo o que teve neste âmbito mais bolsas atribuídas a uma única universidade portuguesa. A FCT reconhece o impacto deste programa doutoral a criar recursos humanos altamente qualificados e especializados que contribuam para a competitividade e sustentabilidade do tecido industrial.

Para o vice-reitor Ricardo J. Machado, fundador do programa doutoral, este é um projeto “herdeiro” da experiência do primeiro Erasmus IP da Europa para doutorandos (coordenado pela UMinho), designado Innovation and Creativity for Complex Engineering Systems, em parceria com instituições de renome como a Universidade Técnica de Viena (Áustria), a Universidade de Aarhus (Dinamarca), a Universidade Åbo Akademi (Finlândia), a Universidade de Vigo (Espanha), a Universidade de Twente (Holanda), a Universidade de Maribor (Eslovénia), a Universidade Técnica de Ostrava (República Checa) e a Universidade de Newcastle (Reino Unido). Além da dimensão cientifica, visa formar engenheiros de 3º ciclo enquanto agentes de mudança nas organizações de base tecnológica, envolvendo docentes da EEUM (na formação em sistemas de informação, informática, eletrónica industrial, produção e sistemas, mecânica e polímeros), bem como do Instituto de Letras e Ciências Humanas e do Instituto de Ciências Sociais da UMinho (na formação em línguas e culturas chinesas e alemãs e em comunicação organizacional).

O programa doutoral foi desenvolvido para preparar estudantes de doutoramento para uma carreira de engenharia avançada na indústria, liderando a inovação e o desenvolvimento tecnológico em sistemas avançados de engenharia, nomeadamente nas áreas de sistemas de manufatura e logística, sistemas de informação e software, visualização de informações e sistemas CAD, sistemas embebidos e informática industrial, além de modelagem, simulação e otimização. Este curso tem, para o seu coordenador João Miguel Fernandes, “características diferenciadoras, uma vez que acontece cooperação real com o tecido industrial”. “Há envolvimento efetivo da Bosch em todo o programa, com o primeiro ano, por exemplo, a ter a parte letiva nas instalações da Bosch e com algumas sessões onde são intervenientes os recursos da própria empresa”, afirmou o responsável, garantindo um programa com uma matriz “vincadamente multidisciplinar e multicultural”.
 
Reitor convicto no sucesso do modelo

Luís Silva Dias também focou a importância deste curso, por "conseguir colocar na indústria a inovação produzida na UMinho”. Ao longo destas etapas “é preciso ultrapassar muitos obstáculos, dificuldades inerentes à realidade. Um aluno com mestrado leva um conjunto de conceitos científicos para o mercado, mas não leva músculo suficiente para passar a nova teoria para as empresas; ou seja, a investigação teórica sem fim à vista aqui não acontece. Neste caso, faz-se investigação direcionada para os problemas atuais”, reiterou o professor. “Temos o desafio de dar continuidade a este programa”, assumiu João Miguel Fernandes, que admitiu ser altura de “encontrar uma nova roupagem para este programa e eventualmente abrir para outras empresas”. “Foram quatro anos de experiência e aprendizagem para todos e agora é o tempo de novos desafios, porventura novos rumos. Poderemos até escolher outras empresas e organizações que se queiram associar para trabalhar connosco em programas futuros”, assumiu.

O reitor da UMinho referiu-se à primeira defesa de uma tese no âmbito deste programa doutoral como algo que significa bastante para a academia. “Há razões para estarmos muito satisfeitos com os resultados obtidos e, com este momento, estamos convictos que se abriram novas possibilidades de relacionamento da Universidade com o exterior”, contextualizou Rui Vieira de Castro, sublinhando as vantagens para a empresa e para a universidade como razões para o deixar satisfeito pela opção tomada de criar este modelo de doutoramento. 

António Vieira, o "corredor de obstáculos e corta-mato"

António Amaro Costa Vieira tem 30 anos e é natural de Famalicão. Desde que terminou a dissertação do seu mestrado em Engenharia de Sistemas na UMinho, trabalhou dois anos com uma bolsa de investigação na Bosch. É docente convidado no DPS-EEUM e soma nove publicações em conferências, já aceites ou publicadas, desenvolvidas no âmbito do doutoramento, além de cinco papers em revistas internacionais. Para o seu coorientador Luís Silva Dias, António Vieira é um “corredor de obstáculos e corta-mato”: “É um bom trabalhador, muito pragmático. Quando é para resolver um problema, define o caminho e vai até ao fim, identificando e contornando os obstáculos que não o fazem desistir”.

A resiliência, a qualidade e o esforço do novo doutor da UMinho foram também elogiados pelo reitor e pelos elementos do júri. "Tenho orgulho deste trabalho, ainda por cima com a boa avaliação que obtive. Foi fruto de muito trabalho. Sei que me esforcei e trabalhei muitas horas”, explicou António Vieira. Ainda não tem "nada definido" para o seu futuro, mas vê-se com naturalidade a trabalhar ora no contexto industrial ora académico. “O doutoramento deu-me essas valências”, rematou.